Terça-feira, Janeiro 02, 2007

Beleza

Deslumbro-me perante a tua intrincada beleza. A sensibilidade com que teces os caminhos que nos conduzem. A forma como colhes da brisa que passa as pérolas de vida que nela se condensam. Esculpes no ar, sobre os caminhos vazios, formas etéreas, obras de uma arte efémera, que ao tempo não resiste, mas que persiste na alma daqueles que a contemplamos.
Não existem dias, não existem noites, nem estrelas, ou constelações, que te igualem em esplendor, singeleza, e, inexplicável resistência. És deusa e rainha, simultâneamente, dona de um trono eterno que te perpetuará para todo o sempre. Sobre ti, escreveremos os que soberam apreciar-te, simples versos, romances inteiros.
Serás de todos, e a todos tocarás duma forma diversa, com tal intensidade, que serás por sempre inolvidável. Nenhum de nós te possurirá, porque apenas nos dás a beleza que tu própria criaste, deixando a essência preservada, intocável e inatigível.
Desgastarei, até à última célula, o meu corpo, na tentativa de apreender de ti, uma única gota de orvalho, uma simples lágrima de vida, que me dará a eternidade.

Quinta-feira, Dezembro 14, 2006

Vislumbre

Encontro-me com a morte, numa esquina da vida. No meio de um sonho qualquer, transformado em pesadelo. Ela, conta-me o caminho. Escuto e vejo no fundo do meu olhar o percurso que tenho de atrevessar.
Perscruto cada recanto, cada imagem, como se da realidade se tratasse. Encontro-me em diversos instantes, cara a cara com as pessoas da minha vida. Encontro as privações, desalentos e desencantos, conheço a troça que outrora me assolou.
Esbarro na física dos elementos, nas trespasso-os como se fosse feito de ar. Luto e desenredo-me da redes que me lançam, qual golfinho em pleno massacre. Batalho e rasgo o inimigo como um bom espartano.
Ajudo e colaboro, como um bom samaritano, salvo e encaminho a criança perdida na floresta escura e sombria. E como se de uma epopeia se tratasse, sucumbo, na última estrofe de um poema ainda por escrever, mas que sei, aguarda pela tinta e o papel para se fazer real.

Terça-feira, Dezembro 05, 2006

Limbo

Fluem os sentidos pela corrente, derramam-se em cascatas de águas agitadas, evaporam-se no calor de instantes tórridos e deixam-se guiar para lá do prazer. Depois, desmaia-se, desliga-se a mente, adormece-se o corpo, que recarga a energia consumida no empenho dramático do instante em que deixamos o êxtase sublimar-nos a líbido.
Depois, vem o silêncio, o vazio imenso de quem esticou o dedo, tocou ao de leve na eternidade, e se deixou morrer. Depois, vem a angústia de perceber que esse é apenas um instante, um momento em que todos os sentidos se elevam e nos transportam tagencialmente ao limiar de uma nova dimensão.
Hoje, não existem imagens que paguem as palavras do que se sente, quando aterramos de novo sobre a realidade. Hoje, não há dia que compense a noite, nem luz que ilumine as trevas. Apenas o som, deste imenso silêncio, se fecha sobre as nuvens de mais uma dia em que a energia não veio potencializar-nos alma, não a acordou.
Deixai-vos estar, abandonai os vossos corpos às rotinas, porque mais tarde virá, outro momento de excitação, que vos trará no segundo seguinte, o limbo.

Quinta-feira, Novembro 30, 2006

Imulação

Mar, de mundos em ebulição, lugar de fermentação.

Espaço fervilhante, lugar de criação. Neste, preciso instante, deixo nascer aqui, o vazio da própria existência.

Palavras vazias, perdidas no espaço, lugares, sem qualquer significado.

Nesta amalgama de gentes, almas e duendes, vagueio, por entre mortos, por entre sombras que a luz do dia, ela própria, cria.

Noites, perdidas no vão de uma escada qualquer, sentimentos espalhados sobre um corpo de mulher.

Inerte criação divina, momento em que me apago, em que me imulo, soltando a alma, em fúria repentina.

Lugar, onde me deito, onde me mato, num gesto sem pudor, ou apenas, o final de um acto.

Terça-feira, Novembro 21, 2006

Presente

Fecham-se as almas nesta cadeia sem grades. Censuram-se as vozes neste espaço vazio de sons. Despojam-se os corpos de todos os sentidos e deixa-se o nada tomar conta da vida.

Esclavizam-se as memórias que já não se têm, apagam-se as recordações do passado. Fecha-se a porta atrás de nós, para não deixar sair o futuro.

Derrama-se o sangue ainda quente. Esvai-se o corpo de todos os líquidos. Evaporam-se os perfumes para deixar transparecer as essências.

Desfaz-se o sonho, mesclado no sono. Dissipam-se os pôr-do-sol e as auroras. Pinta-se o céu em tons de negro e deixa-se a escuridão tomar posse.

Entregamo-nos, neste ciclo de vida, com a euforia da velocidade a que nos consumimos, a que consumimos tudo em nosso redor. Esquecemo-nos de tudo o que fomos no passado, de tudo aquilo que podemos fazer no futuro, para sermos apenas hoje, aqui e agora aquilo que querem os outros que sejamos!

Quarta-feira, Novembro 15, 2006

Barca do Paraíso

Neste barco divino, acolhem-se as almas perdidas, recolhidas na amurada.
Seres naufragados, afogados neste mar de lágrimas.
Barca encantada, de rumo traçado ao infinito, levas, minha alma contigo.
Navio celeste, sobindo o rio do destino, em direcção às portas do paraíso.
O Salvador repousa em ti, guia-te qual timoneiro, por entre rochedos malditos.
Este é o navio do destino, pedra sobre água, nave governada, no espaço imenso.
Acolhe-nos e adormece-nos nesta viagem interminável, para que que se salve a essência, para que se prolongue a existência, para que se preservem os sentidos.

Segunda-feira, Novembro 06, 2006

Oração

Espírito nascente, que do vazio do nada te fazes vida. Espírito indulgente, que purificas a alma. Aguarda-me, espera-me, neste deserto de morte, onde o vazio se faz gente.
Espírito, momento, instante, em que concentras todas as forças, nesta esfera da vida. Renasce, no meio do deserto, por entre as sombras da noite, por entre as trevas do dia.
Deixo-te as minhas preces, como adoração divína, como entrega total á tua vida. Rezo-te, com mil palavra, pronúnciadas na penumbra dos tempos, clamando a tua presença.
Peço-te, guarda-me a alma, defende-a da sombra, e mantém nela a luz sempre acesa, da esperança que um dia me entregaste, como presente de vida.